Arcanjo Gabriel faz a cena
Ataide, Ataíde... Já sentado, aguardando o que lhe traria a eternidade, Ataíde ainda sentia fome e até certo ponto, frio. Como num cenário de filme futurista, o branco perdia-lhe os olhos, a monotonia era literal. No continuar de suas recordações, um momento sem qualquer importância veio-lhe à cabeça. Com seu pai, no velho fusca, descia uma rua de paralelepípedos que desembocava na avenida principal da cidade. Falava qualquer coisa ao pai, não se recorda. Sabia que aquele momento um dia seria lembrado e pensou que o cérebro tem seus caprichos de cérebro. Um ponto longínquo fez-se ver. Continuou o pensamento perdido, que agora lhe mostrava, já na rua principal, uma ladeira que desce beirando a ribanceira de matagal e mata virgem mais abaixo. Segurava o painel e tinha interesse pelo que o pai falava. Talvez ali tenha lhe ensinado o segredo de crescer, como fazem sempre os pais aos filhos, ou talvez o filho, Ataíde, ensinasse ao pai o segredo de resistir criança, ouvindo com os olhos ensinamentos que lhe foram inúteis e fez questão de esquecer. O ponto parecia crescer em sua direção. Rumo à igreja da cidade, situada na praça da cidade, o carro descia e Ataíde tem, abrimos aqui um parênteses, a nostálgica impressão de que todas as suas recordações se passam em dias de especial veludo, quando não há de fato calor, venta o suficiente e há sol. O ponto cresce em negro, e toma grande vulto. Uma fila nasce. Carros pacientes esperam com tempo de cidade pequena e transito de metrópole distante. A volta na praça demora tanto assim uma só vez ao ano. Um a um os carros recebem água benta em seus pára-brisas e ultrapassam o ponto negro...


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