Um sussuro para o mundo
Sabe-se que a literatura dos mortos não cabe na realidade humana. É verdade que algumas brechas dela eles nos dão: sussurros, vultos (que são o tempo de uma página virada) ou mesmo o clássico chamamento pelo nome, que mais me parece uma chamada ao interlocutor: "Leitoooorr!!" - "ouça a minha história", completaria eu. Sendo assim, não é o caso de se ter medo do morto em si, mas sim - e eu teria - da sua história. A história de um morto é o que vive dele e pode ser letal.
Ai reside o perigo da decisão de Ataíde, que foi até um bom cidadão, mas morreu amargurado. Doeu-lhe na carne, em seus últimos segundos, uma existência falha e um conjunto de credos claramente insustentáveis. Agora morto, abre os olhos e languidamente percebe a inexistência, a completude de dúvida que é uma alma sem corpo. Agora morto, não lhe resta decisões plausíveis. Pensa consigo: "pensei demais". Pensa que agora tem os lábios que sempre quis a dois centímetros de sua boca, sem se esforçar. Novamente em vão.
Mas compreendendo essa sua imaterialidade, passa a visualizar todo o problema do mundo. Sente-se o próprio sentido do adjetivo "holístico". Sente-se inteligente, conteúdo, multidisciplinar! Verbo em forma de morto. E a felicidade desse momento quase lhe desfaz a situação de óbito. Quase lhe traz as entranhas que em seu túmulo os vermes comem.
Sólidos, porém, são os caminhos da morte e há, obrigatoriamente, de se caminhar. Porque agora é morto, percebe que não pode mais. Que nunca falou, mas que agora não pode falar. Não pode. Não. O que lhe resta a não ser sussurrar? A não ser vulto para os que quase dormem ou nome para os que querem escutar.
Ataíde não mudou. Não realizou o sonho utópico de criança que tivera enquanto cochilava com o barulho do aparelho de inalação, tentando respirar. Não sofreu o necessário trauma da vida real que este cochilo fatídico lhe impôs ou anunciou. Continua um sussurro ou uma cantiga para o mundo, a única diferença é que morreu.
Ai reside o perigo da decisão de Ataíde, que foi até um bom cidadão, mas morreu amargurado. Doeu-lhe na carne, em seus últimos segundos, uma existência falha e um conjunto de credos claramente insustentáveis. Agora morto, abre os olhos e languidamente percebe a inexistência, a completude de dúvida que é uma alma sem corpo. Agora morto, não lhe resta decisões plausíveis. Pensa consigo: "pensei demais". Pensa que agora tem os lábios que sempre quis a dois centímetros de sua boca, sem se esforçar. Novamente em vão.
Mas compreendendo essa sua imaterialidade, passa a visualizar todo o problema do mundo. Sente-se o próprio sentido do adjetivo "holístico". Sente-se inteligente, conteúdo, multidisciplinar! Verbo em forma de morto. E a felicidade desse momento quase lhe desfaz a situação de óbito. Quase lhe traz as entranhas que em seu túmulo os vermes comem.
Sólidos, porém, são os caminhos da morte e há, obrigatoriamente, de se caminhar. Porque agora é morto, percebe que não pode mais. Que nunca falou, mas que agora não pode falar. Não pode. Não. O que lhe resta a não ser sussurrar? A não ser vulto para os que quase dormem ou nome para os que querem escutar.
Ataíde não mudou. Não realizou o sonho utópico de criança que tivera enquanto cochilava com o barulho do aparelho de inalação, tentando respirar. Não sofreu o necessário trauma da vida real que este cochilo fatídico lhe impôs ou anunciou. Continua um sussurro ou uma cantiga para o mundo, a única diferença é que morreu.


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